quarta-feira, 26 de maio de 2010

Surpresas do paladar no Pari

Arais!
Junto, em árabe. Esse significado é o sentimento natural do ser humano, que tem a característica gregária, o viver junto, o sentido da união. Pois é isso o que fez Carlinhos. Juntou todo mundo na casa dele e começou a misturar as tradições que trazia da memória de seu povo, com as especiarias que encontrou na nova terra que o acolheu. Carlinhos – que na verdade se chama Missaki, nome comum na Armênia como José por aqui – juntou coisas diferentes para estabelecer um novo marco na culinária árabe paulistana. É um prato que parece ser comum à cozinha árabe, mas que não tem similar entre os povos que têm tradição na cultura árabe. Ele queria fazer uma esfirra. Estava com vontade de comer uma esfirra. Mas não dispunha dos ingredientes e nem havia onde comprar nas proximidades do lar. Então, juntou carne, tomate, temperos variados, abriu um pão árabe, colocou tudo dentro, levou ao forno – a lenha – mas não aprovou o resultado. Tirou o tomate. Provou. Gostou. Chamou os amigos e, diante da eufórica degustação, teve a certeza: estava óptimo (assim, com pê mesmo, pra dar mais ênfase). Arais!
A expressão árabe encontrou a plenitude na reunião da comunidade armênia no Pari, tradicional bairro paulistano com muitos imigrantes, dentre os quais os armênios. Eles são tradicionais artesãos dos calçados, mas também se aventuram por outras habilidades, como Garô Aharonian, fotógrafo de fino trato, mestre das oficinas profissionalizantes do Senac. São alegres, artífices de festas memoráveis. Talvez seja próprio, da essência desse povo. Quem sabe tenha sido um sentimento cultivado, depois do horror do massacre imposto pelo Império Otomano durante a Primeira Guerra Mundial. Considera-se que até um milhão e 500 mil armênios desapareceram no que é conhecido como o primeiro genocídio da História Moderna. Até hoje, a Turquia não aceita que se diga que tenha cometido genocídio. O que terá sido? Massacre? Chacina? Holocausto? Trocando-se o termo, o que muda na História, e na memória, desse belo povo, herdeiro de cultura e tradições milenares...Antes de Roma, no século IV (ano 301), a Armênia foi o primeiro país a adotar formalmente o Cristianismo como religião oficial de Estado. Sofreu sucessivas ocupações e divisão, provocando uma diáspora que levou os armênios para várias partes do mundo.
No Brasil, Missaki encontrou um jeito de superar as dificuldades promovendo a reunião de amigos em torno da mesa. Da boa mesa, diga-se, o que influenciou e foi determinante para o filho Fernando. Este, é um caso especial. Seu hobby, quando estudante adolescente, era receber primos e amigos da escola e da comunidade na própria casa para brincar de...restaurante!
Arais!
Missaki juntou a fome com a vontade de comer. Reuniu a família e montou o Restaurante Carlinhos, o que faz a felicidade geral da paulicéia desvairada, que ganhou um rincão armênio que satisfaz a gregos, baianos e paulistanos que comem a não poder mais. Não é preciso nem fazer pedido. Fernando vai trazendo os pratos prontinhos, à medida que o cliente vai terminando de saborear o que lhe foi servido. E a primeira especiaria chega em menos de cinco minutos. É o Arais! Surpreendentemente simples, gostoso e inacreditavelmente leve. A partir daí, é uma sucessão agradabilíssima de surpresas do paladar...A sobremesa? Só embrulhando pra viagem. Arais!

Um comentário:

Heitor Loureiro disse...

Belo post! Parabens por divulgar a cultura armênia. Abraço!