segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Sean see Sun

Spielberg mostrou num filme - O Império do Sol - como a mente humana viaja olhando para o céu. Ou para o Sol. O garotinho, carente de tudo, olhava para o céu, na precisa hora do sobrevôo dos aviões norte-americanos que chegavam para reverter a situação, e exclamava: "cadilacs do céu...", num momento de êxtase, em que tudo o mais parecia ter pouca ou nenhuma significância. Pode-se pensar que é o mesmo que imaginar onde é que o Sol pode estar. Por aqui dizemos ´o´ norte. Meu norte está em tal ou qual lugar. Siga seu norte, costuma-se dizer às pessoas que, às vezes, parecem perdidas, sem rumo...Deve ser por isso mesmo que uma bússola sempre indique o Norte, o rumo que possibilite a percepção de onde se está.
Pois é, pensando nisso, imaginei que o pequeno Sean, objeto de disputa há dois mil dias - sem mãe, morta há mais ou menos 500 dias -, deve estar pensando na vida boa que poderá levar em New Jersey, a partir de agora, e nem mais se lembrar da boa vida que levava no Rio de Janeiro, até a véspera do Natal. Que data! O pai, David, disse que a família renasce com a chegada (realmente, a volta) de Sean. E Sean, que [ao caminhar com a família carioca] só fazia chorar, abriu um largo sorriso ao correr para abraçar o pai, de quem fora separado há mais de cinco anos...
Renascimento. Natal é nascimento. Mas, quando está de volta algo como uma vida que se perdeu, é renascimento. O pai está certo na afirmação. E deve ter tido o dedo do Pai, que o seu único filho deu ao mundo, cuja data é celebrada como Natal em todos os países, menos um...
Afinal, Sean vê Sol. Há um brilho no céu, no olhar das pessoas. Do pai, resgatando o filho que lhe foi arrancado do convívio. Acabou a choradeira. "Acabou chorare", diriam os Novos Baianos em exclusivíssima canção dos anos ´70 do século passado...
Na verdade, uma história como essa só acontece porque existe a burocracia. O império do gabinete, dos burocratas. Nada mais natural do que deixar com seu pai o filho que perdeu a mãe. Se pai e filho não estão juntos porque não querem, ok, não deve existir obrigatoriedade nenhuma de que assim o façam. Mas, quando estão separados contra a vontade de ambos, é dever do Estado promover a aproximação. Se esse reencontro demora a acontecer, certamente o é por determinação de um estado de coisas ditadas por causídicos, situações inalcansáveis para o cidadão comum... Afinal, quanto mais demora, mais ganham os doutores...

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Eu, você, o outro: Nós?

Acordei de um sonho estranho. Revelador. Tentava eu atravessar uma grande avenida cuja confluência envolvia o cruzamento de veículos e pedestres de várias direções, exigindo, portanto, redobrada atenção de cada um dos participantes dessa travessia necessária. Enquanto aguardava a abertura do sinal, veio-me à mente a história relatada por Hermann Hesse num de seus livros (Viagem ao Oriente, se não me falha a memória), em que mais ou menos conta o seguinte: um velho barqueiro oriental é reconhecido por um dos passageiros no momento em que faz a travessia de um rio numa remota região indiana. O ocidental o interpela, indagando as razões de ele ter abandonado a vida de fausto que então levava quando o conheceu no Ocidente. O velho não se deu por achado e nada respondeu. Seguiu firme no leme da embarcação, olhos fixos no infinito, do outro lado da margem que deveria alcançar. Impaciente, diante da chegada iminente, o ocidental insistiu em saber. O velho sorriu. Aportou, olhou para seu interlocutor e recomendou que se sentasse num banquinho sob uma grande árvore. Passou a relatar etapas de sua vida na juventude exagerada que levara, experimentando tudo que o mundo material lhe pudesse proporcionar, no afã de saciar seu espírito exigente de aventuras e de experiências extraordinárias. O tempo passou. E com esse passar ele percebeu que a passagem é o melhor de tudo. As pessoas estão loucamente apressadas em passar de um estágio a outro, que, por vezes, não chegam a perceber a beleza da passagem, e que ele mesmo perdera tempo demais em suas buscas, que acabaram se revelando vazias, razão pela qual ele, agora, encontrara a tranqüilidade, enquanto observava os afoitos rostos de seus eventuais companheiros de viagem, em buscas frenéticas sobre o que poderiam encontrar do outro lado, sem se dar conta das belezas oferecidas pelas ondulantes águas do rio, do frescor do vento no rosto, da mudança de tom no céu durante o balanço da embarcação. Da alegria de partir de um ponto e chegar seguro a outro, utilizando uma velha embarcação da qual ninguém se lembrou de pedir garantias... Nesse exato momento – pondera o velho – ele se deliciava com o prazer de lhes proporcionar uma travessia suave e tranqüila.
O sinal abriu. Apressei-me em avançar, como as outras pessoas a meu lado. Mas, de algum ponto que nos escapou surgiram carros e motos em grande zoada, obrigando-nos a voltar rapidamente para a calçada, enquanto ouvíamos uma caçoada do bando que passava – Mas vocês, hein?
Finalmente conseguimos chegar ao outro lado. E lá estava, na calçada, com sua moto, um dos caçoadores. Sem capacete, retirando encomendas da moto, assustou-se quando dele nos aproximamos. Sorriu nervosamente, amarelo, e fez menção de desculpar-se – Nada disso é preciso, disse-lhe uma velhinha a meu lado. Você, agora, é um de nós.
Quem são os outros?

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Lula, Dona Canô, e o destemperado no Programa do Jô

Caetano Veloso disse que Lula fala errado. Nenhuma novidade. Criticou também o modo como apresenta o governo, dizendo que antes [com FHC] era melhor. Novidade nenhuma, partindo dele (compositor, provocador, estudioso de filosofia, sociologia e adepto de modismos outros, além de narcisista contumaz, autor do epíteto “A Falha de S. Paulo”, num momento em que se indispôs com algo publicado pela “Folha”, diário paulistano) . A novidade foi que Dona Canô, mãe do músico, disse a Lula, por telefone, que não gostou das declarações do filho, e que delas discordava. Importante notar que a crítica de Caetano a Lula foi publicada num texto que o baiano escreveu em artigo na Folha de S. Paulo, por ocasião da morte do antropólogo francês Claude Lévi-Srauss, a quem faz referência numa de suas composições.
O resumo da história da conversa entre Lula e Dona Canô saiu na Folha de domingo, 22 de novembro de 2009 (p. C8). Sob o almodovariano título “Tudo sobre minha mãe”, o texto diz: “Lula e Dona Canô, 102, mãe de Caetano Veloso, se falaram por telefone nesta semana, depois de ela ter discordado de declarações do filho sobre o presidente...”. Ok. Quem sabe ler sabe entender. E quem não sabe? Ou não leu?
Quem só assistiu ao Programa do Jô de segunda-feira, 23 de novembro, além de ver um novo e ótimo grupo musical, ficou com outra impressão do episódio da crítica a Lula. Havia lá um cidadão sendo entrevistado que estava mais disposto a fazer discurso. Ele começou com uma destemperada declaração contra o governo e a diplomacia brasileira por causa da visita do presidente do Irã a Brasília. Pregava o isolamento total, o totalitarismo, chegando quase a babar. Inicialmente (e surpreendentemente) Jô parecia anestesiado diante do discurso do cidadão a quem ele chamara como sendo um “jornalista polêmico” – melhor se tivesse dito panfletário – e manifestou certo desconforto ao interferir, o que conseguiu a duras penas, o que convenhamos, não é comum em seu programa. Disse que era preciso que falassem do assunto sobre o qual ele havia sido convidado para o programa. O cidadão consentiu. Assoou o nariz, disse que não estava irritado (Jô disse: “tá sim, tá sim”), e continuou, sem dar vez ao Jô. Atacou o governo por pretender controlar a imprensa, como na ditadura. Jô interveio e disse que, naquele tempo, houve censura etc. e tal. O cidadão não se deu por achado, e disse claramente que, naquele tempo a imprensa não fez o que deveria ter feito (“imprensa tem que ser contra o governo”), pois o que existia era uma continuidade do que vinha da era Vargas, com quem Samuel Wainer era mancomunado e outros jornalistas com outros governantes. Disse mais: “nós, depois da ditadura, fizemos uma imprensa profissional (?). Agora, cada um tem sua opinião, sua preferência, tudo muito claro”. E arrematou: “o Lula não gosta de crítica. O Caetano criticou Lula e ele [Lula] ligou pra mãe dele [Caetano]”.
Aí o cidadão saiu do tom de vez, ficou de pé, instou a platéia e bradou: “Cuidado, se alguém aí criticar o Lula, ele liga pra tua mãe”. Pois é, nessa altura a cara do Jô dava aquela impressão de quem está pensando: quem foi na produção que chamou esse cara? ... Coisas de um programa ao vivo, em que um cidadão mal intencionado se utiliza do espaço riquíssimo para alardear opiniões sob encomenda. Pelo que se lê do que está escrito na Folha, a questão não foi essa. Logo, o cidadão distorceu. Além disso, deveria citar outro governante, José Serra. Este, quando não gosta do que escrevem/falam sobre ele, liga para a redação do jornal, revista, tevê, rádio, e pede a cabeça do autor da reportagem, quiçá também do editor... Não deve ser o caso desse cidadão, pois deixou claro que, de alguns governantes, ele fala bem.
Prefiro ficar com Millôr Fernandes, para quem imprensa é, sempre, oposição. Fora disso, “é armazém de secos e molhados”.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

O Vírus e sua utilidade

Ele não pede licença. Instala-se e, pronto. Tá feito o estrago. Toda uma gama de informação a respeito de como se dá tal instalação deixa muito a desejar se o cara não for um interessado estudioso dos detalhes de membranas, envelopes, ácido ribonucléico e outros que tais... Agora, tem um brasileiro que decidiu demonstrar como se deu (se dá) “A História da Humanidade Contada pelo Vírus”. O livro é de autoria do médico infectologista Stefan Cunha Ujvari (Editora Contexto, 2008), que conseguiu trazer a genética, definitivamente, para a área das ciências do homem. Miscigenação, conflitos, êxodos, fortalecimento e enfraquecimento de povos, enfim, o nome do livro resume tudo isso, mas sob a inesperada visão do vírus.
Pois é esse talzinho aí me pegou. Segundo a ótica especializada de quem fez a análise da [minha] situação, ele já tava instalado, “adormecido”, só esperando o melhor momento pra entrar em ação. Esse momento é descrito como baixa de resistência. Então, o bicho não tava dormindo coisa nenhuma. Tava é muito do esperto esperando o momento certo de entrar em ação. Penso até que ele deve ser discípulo do Sun Tzu (A Arte da Guerra), que recomenda exatamente isso aos soldados que querem vencer uma batalha: esperar o momento exato de uma certa fraqueza do adversário.
Conta-se que o primeiro vírus da influenza chegou ao Brasil com a República, em 1889. Teria vindo num navio que trouxe mercadorias de Hamburgo, com um exemplar do vírus russo a bordo. Depois, em 1918, com a famosa febre espanhola, mais tarde com a asiática, a de Hong Kong, a aviária, a suína – também chamada de mexicana – tudo porque é preciso identificar o mal e a sua origem. Mas muito disso pode ser história mal contada ou intencionalmente fabricada. Pois se é verdade que muito do que se escreve é feito com muita pesquisa [como no caso do dr. Ujvari que fez extenso trabalho consultando mais de quatro centenas de pesquisadores internacionais], há também muito jogo de interesse e sobretudo, de escapatórias. Pois não pega bem para uma potência mundial ver seu nome associado a um mal que dizima a humanidade sem piedade. Assim, se aconteceu num território específico, mas pode-se dar um ´jeitinho´ pra atravessar a fronteira e alardear que ´foi do lado de lá que começou´...
A famosa gripe espanhola que dizimou 50 milhões de pessoas (número ainda em discussão, que gira entre 30 milhões e cem milhões de pessoas), não seria espanhola coisa nenhuma. A origem do nome teria se dado em razão de ter sido a Espanha o país que identificou e tipificou o vírus. Daí... O que se diz agora é que, “não se sabe ao certo se a origem do vírus teria sido os Estados Unidos da América ou a China”, mas o mal ficou conhecido como “epidemia espanhola”.
Tem um livro de uma jornalista norte-americana, Gina Kalek, que se debruçou sobre o tema e escreveu “Gripe: A História da Pandemia de 1918”. Pode ser interessante, quase um século depois...
E, há um quarto de século, o vírus migrou da biologia para a tecnologia, atingindo mortalmente as máquinas ditas infalíveis. A exemplo do que acontece na biologia, que um novo vírus vem sempre associado a um laboratório específico que tem um remédio ´x´ e já está desenvolvendo a vacina ´y´, também com o surgimento do primeiro vírus de computador, quando quase nada se entendia do que estava acontecendo, aparecia o nome de dois irmãos, com telefone e tudo o mais, para ´qualquer serviço de reparo para recuperar máquinas danificadas´...
Fértil terreno de pesquisa.
Ainda mais quando se pensa que a varíola, dada como extinta, pode ser acionada a qualquer momento, pois boas cepas do vírus "estão muito bem guardadas" em laboratórios nos Estados Unidos e na Sibéria. Dois locais até bem pouco tempo em ferrenha disputa pela hegemonia mundial...

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

205, 203, 204...uma olhadinha nos telejornais

O dia era da Bandeira, 19 de novembro, dedicado ao símbolo nacional. Mas quem deu bandeira mesmo foi o jornalismo da Globo: no JG, 205; no BDBR, 203; no GE, 205. A referência numérica diz respeito à quantidade de dias que faltam para o início da Copa do Mundo de Futebol, a ser realizada ano que vem, em solo africano. No JG (Jornal da Globo, no ar na madrugada de 5ª feira, dia 19), Cristiane Pelajo disse: "A duzentos e cinco dias da Copa do Mundo são conhecidas as trinta e duas seleções que participarão do torneio na África do Sul". No BDBR (Bom Dia Brasil, apresentado na manhã de 5ª feira, dia 19), Renata Vasconcellos leu um texto parecido com o do JG, em ordem invertida: "Conhecidas as trinta e duas seleções que vão participar da Copa do Mundo, daqui a duzentos e três dias". Já no GE (Globo Esporte, no ar na tarde de 5ª feira, 19), Glenda Koslowski foi firme: "A duzentos e quatro dias da Copa..." O telespectador dos três noticiosos ficou com uma certeza: a Copa do Mundo será na África do Sul e dela participarão 32 seleções. Quanto aos dias faltantes...melhor consultar o calendário.
E agora que virou moda os apresentadores de telejornais darem ´toque´ ou mesmo ´advertência´ ao telespectador, difícil chegar ao fim de uma notícia em que não venha um desses ´toques´. Foi assim no JH (Jornal Hoje dessa mesma 5ª feira). Depois de uma reportagem com adolescentes "que pagam mico" diante de certas atitudes dos pais [que revelariam que os pais estão fora de moda], a apresentadora Sandra Annemberg mostrou a luz no fim do túnel, e sapecou: "É bom lembrar que esses jovens, adolescentes agora, serão pais e mães no futuro, e vão enfrentar esse problema".
Oooh!!!, que revelação...
"Ô Cride, fala pra mãe, que a televisão me deixou burro, muito burro demais..." diz o refrão de um hit dos Titãs, lembrando um personagem criado pelo humorista Ronald Golias. Ele, Golias, num programa de tevê, sempre que ia dizer alguma besteira lascava o bordão: "Ô Cride, fala pra mãe..."
Pois é: a prepotência de quem faz televisão (e agora também jornalismo, que virou uma produção pra agradar) é imaginar que só lida com idiotas. Será que a interação prometida pela TV Digital mudará esse quadro?

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

This is America. But...

América Central, América do Norte, América do Sul. Nessa ordem, se for pra seguir o alfabeto...Enfim, América.
Mas, qualquer um que já tenha visitado Miami ou não, sabe que 60% da população é composta por latinos (sim, os latino-americanos), e o restante, não sendo latino, fala castelhano ou arremedos dele, ainda que sejam norte-americanos. Da Flórida, até o Alabama, é essa a ordem das coisas. Mas, ao cruzar com um americano "wasp", o vocábulo discricionário que identifica os "americanos de verdade" - w= white(branco); as= anglosaxão (a ascendência britânica, colonizadora); e p= protestante, a religião predominante -, o latino recém-estabelecido em território alienígena (sim, porque mesmo sendo americano, do Sul, do Centro, é discriminado), tem um choque ao ouvir, de forma arrogante: "This is America", disse-me Dácio, que morou em Miami em 1994, representando uma empresa brasileira que tinha negócios lá. Ele lembra que, naquele ano, disputava-se a Copa do Mundo de Futebol em território norte-americano, mas, nos jornais locais (Miami Herald, em inglês e espanhol), somente uma linha, no pé da página dava os resultados dos jogos. Todo o espaço era ocupado com "as coisas da América", deles...O que é o futebol?, coisa de subdesenvolvidos. Eles só lutaram pra promover a Copa do Mundo em troca do capital - a velha e boa grana - que, certamente, amealharam...This is America!
Ok!, eu já sabia. Eu também sou América. Rarará. Isso é o que diria José Simão - o debochado colunista da Folha de S. Paulo -, porque não dá pra levar a sério tamanha arrogância dos também colonizados, como de resto toooda América. Afinal, os que na América (Central, do Sul ou do Norte) chegaram cuidaram de aniquilar a vida anteriormente existente, fazendo com que qualquer sinal de civilização pré-estabelecida fosse eliminada.
Muito bem.
Isso posto, façamos um pequeno paralelo com a crise vivida atualmente em Honduras, onde um presidente eleito pelo voto democrático foi deposto do cargo e um fantoche assumiu o posto, num claro golpe de estado, arrostando a lei e se autointitulando o defensor da legalidade. Se a Carta Constitucional foi aviltada (o presidente deposto foi retirado de sua residência em pijamas, sob a mira de metralhadores e embarcado em avião para fora do país, ferindo a legislação local), como autoproclamar legalidade?
Muito se tem escrito a esse respeito, sobretudo para condenar (aqui no Brasil) a posição brasileira de dar asilo ao presidente deposto que buscou guarida na embaixada brasileira em Tegucigalpa.
Recomendo a leitura do artigo do jornalista José Arbex Jr. na revista "Caros Amigos" de outubro/2009, p.7, em que diz: A "crise de Honduras" sintetiza e ilumina um momento histórico ímpar na história mundial. Pela primeira vez, desde 1823, quando James Monroe formulou a doutrina que leva o seu nome ("a América para os americanos" - quando, de fato, tinha em mente "a América para os estadunidenses"), Washington, nitidamente, perdeu o controle e a iniciativa sobre os desenvolvimentos políticos e sociais na América Latina e no Caribe.
E Arbex continua: O papel assumido pelo Brasil, nesse quadro, tem dimensão explosiva: em nome dos princípios democráticos que devem nortear a relação entre os Estados, o governo brasileiro não se limitou a "condenar" o regime golpista, nem se contentou com sanções limitadas. Isso pode inaugurar uma nova etapa da relação do Brasil com a comunidade mundial das nações, e abrir o caminho para novos desdobramentos democráticos na América Latina.
Na conclusão de seu artigo, Arbex lembra: "Desde 1823, o jogo entre as nações do planeta tinha na Doutrina Monroe um de seus parâmetros. Nenhuma outra potência mundial sequer tentou, seriamente, disputar a hegemonia dos Estados Unidos na região (exceto no famoso episódio dos mísseis de 1962, quando a então União Soviética tentou transformar Cuba em plataforma de lançamento de mísseis nucleares). Hoje, a Doutrina Monroe, pela primeira vez, começa a fazer água, mas não num quadro qualquer, e sim no da maior crise enfrentada pelo capitalismo desde 1929".
A grita é grande (de parte encomendada da crítica) contra o posicionamento adotado pelo governo brasileiro. E, sobretudo, por ter o deposto governo hondurenho se alinhado com o venezuelano na Alba. Mas, tudo faz sentido, se lembrarmos que, em abril de 2002, Washington apoiou uma frustrada tentativa de golpe para depor Hugo Chaves (que tem a ver com a cassação da concessão de uma emissora de TV que defendeu o golpe), e que também fracassou ao tentar fabricar uma guerra civil para acabar com o governo do ´cocalero´ Evo Morales na Bolívia, em 2008.
Yes, we are America!

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Uni - Tali - ban

E a universidade fez coro com os retrógrados, vândalos, sádicos e totalitários. Num ato que demonstra a plena identidade com o que de pior poderia ser gerado em ambiente acadêmico de verdade, a Uniban, agora identificada com o Taliban, expulsou da escola a garota Geisy (a que provocou uma onda reacionária há duas semanas por causa de uma minissaia), "por ferir os princípios da instituição", segundo o departamento jurídico da Uniban. Agora, só falta baixar uma lei obrigando o uso da ´burca´ - aquela roupa que cobre o corpo todo das mulheres muçulmanas - pelas alunas que ainda puderem frequentar algum curso ali, pois para o Taleban, mulher não tem que estudar, só cuidar dos filhos...Lembram disso? Será que nessa faculdadezinha algum dia alguma aluna poderá apresentar um trabalho sobre o "Women´s Lib"???
Mas do MEC vem a advertência: "Uma universidade tem uma obrigação educacional que precisa estar presente em todos os momentos. É um local não apenas de convivência, mas de formação de valores [...] O MEC tem o dever de pedir explicações [à faculdade]. Esse caso me parece ter um forte caráter de gênero. Seria a mesma coisa em um caso de racismo", disse Maria Paula Dallari, secretária de Ensino Superior do Ministério da Educação. Maria Paula também disse que a escola revela preconceito de gênero, pois em nota paga publicada nos jornais, a escola justifica a expulsão alegando que a estudante usava roupas curtas e tinha atitudes provocativas, que teria resultado em uma "reação coletiva de defesa do ambiente escolar" - pasmem! -. A secretária também diz que causou estranheza o fato de Geisy ter sido expulsa enquanto os alunos que provocaram o tumulto terem sido penalizados com suspensão. Na nota, a escola aponta como acertada a decisão de uma sindicância interna, pois houve desrespeito aos "princípios éticos, à dignidade acadêmica e à moralidade". Rárárá, seria a reação do colunista da Folha, José Simão, que criou um neologismo para os estudantes dessa escolinha: universotários. Dignidade acadêmica??? O que é isso?, para uma instituição que não respeita a dignidade do diferente no ser humano?

Tempos estranhos esses...

O promotor criminal e membro do Movimento do Ministério Público Democrático, Roberto Livianu, não tem dúvida: "a Uniban meteu os pés pelas mãos. A atitude representa um profundo e lamentável desrespeito às mulheres, é um pensamento arcaico". Nenhuma organização pode ter leis acima da Constituição, e é o que se verifica neste caso, segundo o advogado constitucionalista Pedro Estevam Serrano. Ouvido pela Agência Estado, o professor da PUC de São Paulo, considera: "Há algo ainda mais grave, que é o indício de que a universidade tenha agido com preconceito de gênero contra a aluna, ferindo o artigo 46º da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) que determina o respeito à diversidade e à tolerância".

O Taleban e a "reação coletiva" da turba da Uniban...

Para o psicanalista e colunista da Folha de S. Paulo, Contardo Calligaris, "as turbas têm um ponto em comum: detestam a ideia de que a mulher tenha desejo próprio". Para ele, os alunos que saíram de suas aulas (naquela noite de 22 de outubro) e se aglomeraram numa turba para xingar, tocar, fotografar e filmar a moça, se assemelham às hordas da Idade Média: "Com seus celulares ligados na mão, como tochas levantadas, eles pareciam uma ralé do século 16 querendo tocar fogo numa perigosa bruxa [...] Entre esses boçais, houve aqueles que explicaram o acontecido como um ´justo´ protesto contra a ´inadequação da roupa´ da colega. Difícil levá-los a sério."
Pois, levando-os a sério, a direção da Uniban mostra que está mais para Taleban e, agora, vai ter que se explicar ao MEC que tem fatos suficientes para cassar a licença da escola.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Saudades de 67...

O intrigante caso da agressão à garota de minissaia aconteceu numa universidade de São Bernardo do Campo, cidade do ABC Paulista que fez história, com movimento sindical ousado, que afrontou a ditadura militar com a primeira greve que deixou assustado os poderosos de plantão, ainda que não tivesse outra intenção que não apenas melhorar o rendimento familiar, de modo a pôr na mesa o sustento da família e sonhar com melhores dias para os filhos.
Pois é, a cidade cresceu, e a outrora "República de São Bernardo" dá lugar a uma pujante cidade onde proliferam cursos superiores, tendência já delineada nos tempos do movimento sindicalista, então liderado pelo homem que hoje comanda a Nação. Grandes homens se fizeram à margem dos bancos escolares, mas nunca desprezando o saber, o conhecimento, a cultura do seu povo.
Em sua coluna na Folha de S. Paulo, o jornalista e escritor Ruy Castro dá nome à loura agredida por universitários enfurecidos: Geyse. Ela foi e é perseguida por ostentar a modernidade que os demais sequer sabem como expressar. Castro diz ter saudades daqueles anos de 1967, "quando nós, os rapazes do 1º ano do curso de ciências sociais da FNFi (Faculdade Nacional de Filosofia), no Rio, víamos com muito prazer o fato de que a maioria das meninas da turma ia de minissaia à aula".
"Não eram minissaias sóbrias, a menos de um palmo do joelho, como o vestido de Geyse. Eram muito mais curtas. E nenhuma das moças, por mais bonita, fazia aquilo para provocar. Elas eram modernas, liberadas e gostavam de namorar". E ele acrescenta que elas só namoravam quem elas queriam. Lutar? Só contra a ditadura militar, que lhes salpicava coxas e canelas com pequenos cortes dos estilhaços espalhados pelas bombas de "efeito moral", ao contrário dos rapazes que, de calças jeans, tinham as pernas protegidas...
Depois veio o período de trevas de 1968, que parece rondar a cabeça de quem sonha com o totalitarismo da moda quarenta anos depois.
O enfrentamento, com graça e coragem, segundo Castro, não tirou das moças o perfil de seriedade de estudantes dedicadas, que completaram seus cursos. "Muitas pagaram o preço [da luta contra os militares], na forma de prisão, tortura, exílio ou morte de alguém próximo (...) mas se tornaram respeitadas em suas carreiras".
A que carreiras estarão encaminhando seus cursos os agressores de Geyse?

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

A loura, a minissaia e o espanto!

A minissaia já é cinquentona e ainda provoca espanto. Quando surgiu provocava uma certa aflição, estampada nos olhares atônitos de jovens que seguiam longas pernas ou nem tanto, que passavam...atraentes, provocantes, empolgantes, que faziam empolgados rapazes arriscarem-se a um galanteio, daqueles que não dá pra segurar...Criada numa cidade de clima frio, era acompanhada de coloridas meias de lã. Nas cidades de clima quente, o sucesso foi imediato. De primeira foi utilizada pela galera mais descolada no mundo da moda e, sobretudo, no trato social mais liberado, caindo em seguida nas graças da geral, que começou a encontrar variadas maneiras de apresentação cada vez mais ousadas.
Nas cidades praianas ou de frente para rios, pode-se dizer que foi como se aquela vestimenta já estivesse pronta na cabeça das pessoas, de tão natural o uso de roupa curta em locais quentes e de beira de praia. De mar ou de rio. Nas cidades "sem frente" sempre houve certa reserva para vestimentas mais arrojadas, pois o próprio ambiente torna o trato social algo mais fechado. Coisa para sociólogos de plantão. Mas a realidade da facilidade, da graça e da beleza da minissaia se firmou ao longo do tempo. E mesmo manifestações públicas de desaprovação, que chegaram a agressões a algumas arrojadas moças pareciam coisa de um passado enterrado e esquecido.
Mas qual!!!
Semana passada, mês de outubro desta primeira década do terceiro milênio, século XXI, pasmem! Uma garota jovem, loura, bonita, foi perseguida dentro do campus de uma faculdade em Sampaulo...Isso mesmo: a metrópole que se pretende a noviorque brasileira tem dessas coisas. Um escracho. A loura de olhos verdes abusou. A beleza, como disse o poetinha, é fundamental...mas tem que pagar seu preço, complementa a juventude irada dessa escolinha...Sim, escolinha. Afinal, a instituição é avaliada pelo que mostram seus alunos e egressos. Se uma garota é agredida, se não pode circular livremente no pátio interno de uma escola, esta é uma escolinha. Não a do professor Raimundo, pois lá as beldades circulam livremente. Mas a loura de minissaia teve a ousadia de sair da sala de aula e ir ao banheiro. Lá foi alcançada por duas dezenas de garotas, sim garotas, que tentaram obrigá-la a vestir calças compridas...Estavam, certamente, desconcertadas pela atração que a loura provocava, e exigiam que ela fosse embora. Alunos em geral se aproximaram. Queriam tocar na loura, fotografar...seu rosto, pernas e, pasmem novamente, até por debaixo da minissaia...Um professor deu proteção à loura, levou-a à sala. Os alunos começaram a chutar a porta e a exigir que o professor "deixasse a moça com eles"...Claro que, no meio disso tudo, os impropérios rolavam soltos. A polícia foi chamada e a loura deixou a escola escoltada.
A loura, em soluços, disse à reportagem que jamais imaginaria cena destas numa faculdade, onde as pessoas se apresentam para melhorar conhecimentos, aprender a se relacionar harmonicamente com o diferente, a ser, enfim, uma pessoa melhor. Disse ainda que utiliza transporte público diariamente vestindo minissaia. Recebe muitos galanteios, ouve assovios, mas nunca agressões...
É...nesses bancos de escola em que a preocupação com a nota e o vale-tudo profissional leva vantagem sobre as relações, sobre as condições, sobre o respeito, sobre o convívio, sobre a vida com livre arbítrio de cada um, os aprenderes possíveis são somente aqueles que movem os sentimentos de grupos, grupelhos, gangues...sobretudo dos ressentidos, sem auto-estima suficiente para fazer o que lhes dá na telha, pois não têm coragem de destoar da gangue. E demonstram que, na realidade, o que a loura mostrou foi algo muito além das pernas, foi a pequenez da alma de cada uma daquelas pessoas que se sentiram agredidas por tamanha desfaçatez de alguém se apresentar sem temor do ridículo que é a opinião alheia sobre a vida pessoal de alguém. Talvez, nessa escolinha, e não apenas, esteja na hora de uma lida rápida nos escritos de Hannah Arendt, em "A condição humana", pois é do desrespeito com o diferente que brota o autoritarismo latente em cada mente que pretende uniformizar comportamentos.

sábado, 3 de outubro de 2009

Berlim 1936 e 2009 - o alemãozão e o alemãozinho

A prova dos cem metros rasos tem um valor especial, é considerada a rainha que coroa uma competição de atletismo. Numa Olimpíada, é das mais esperadas. Foi assim em 1936 numa Berlim tomada pelo nazismo, que tinha por meta coroar um atleta de nacionalidade alemã, raça que se pretendia estabelecer como superior pelo empertigado chefe do governo e do exército. Plano frustrado. O alemãozão, chefão do nazismo, que se preparava para ir à pista cumprimentar seu atleta sai do estádio às pressas para não ter que cumprimentar um negro norte-americano que cravou exatos dez segundos e vinte centésimos para receber a medalha de ouro. Jesse Owens, o negro que fez história, deixou mudo o estádio de Berlim, mas sorriu satisfeito...
Novamente, nesse mesmo estádio, campeonato mundial de atletismo de 2009, outro negro, sorridente, jamaicano, estabelece nova marca para a clássica prova dos cem metros rasos: nove segundos e 58 centésimos. Usain Bolt abre o largo sorriso e um estilo pessoal de comemoração, com as duas mãos em diagonal e o dedo indicador apontando para o céu. Na arquibancada do estádio de Berlim, aplausos. E um alemãozinho, carapintada com as cores da bandeira da Jamaica, agitando uma bandeirinha com o nome de Bolt. Novos tempos. Seria o novo homem, como previra Nietzsche?

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

R$ 0,01 ou simplesmente:um centavo

Já pensou como os bancos enriquecem?
Fora tooodas as questões que dizem respeito a investimentos com dinheiro dos outros (nosso) e, acima de tudo, isenção de impostos (são livres da Receita Federal, o famigerado Leão), cobram taxas pra ficar com o dinheiro. Pode ser o dinheirão dos megacapitalistas ou o dinheirinho, dos assalariados, que não têm pra onde correr, e deixam o salário depositado no banco, sacando aos pouquinhos, fazendo um cheque aqui e ali pra pagar esta e aquela conta...e considerando que está ´ficando bem com a gerência´ deixando um pouco de dinheiro disponível sem utilizar........Ledo (e Ivo) engano.
Isso é o que acontece nas redes mais famosas daqui de Belém, como Lojas Americanas e Big Ben, um conglomerado de farmácias que jamais te dá troco entre R$0,01 e R$0,03.. A partir daí, te dá R$0,05; assim como a partir de R$0,06 a R$0,07. Depois disso, nada! Quer dizer, as lojas de departamento e as farmácias estão atuando como coletadores de dinheiro que a população (consumidores) tem direito.
Quanto aos bancos, é assim mesmo: tirando aqui e ali as taxas de utilização diária dos serviços (???) que prestam aos correntistas...os banqueiros enriquecem astronomicamente, gozando das taxas que eles mesmos atribuem, e que ninguém controla. Se alguém controla, rapidamente é controlado. Por isso, ficamos irados com a greve dos bancários que, de novo, nos deixa na mão.
Ficamos sem poder sacar o que, de fato, é nosso. Ficamos sem poder pagar as contas que, de fato, nem queríamos pagar, mas se atrasarmos será muuuito pior. Aliado a isso tudo, tem a greve dos trabalhadores nos correios...Sinceramente, é dose!
Quer dizer: não conseguimos sacar o dinheiro. Não recebemos as contas. Não pagamos. Ficamos no débito e, então, quando tudo estiver liberado, teremos que pagar taxas e juros absurdos que não temos como controlar. Os bancários, se obtiverem o que pleiteiam, nem vão querer saber de nós, que estaremos à frente do caixa (aliás, das filas dos caixas) para tentar pagar aqueeeela conta! Ah!, sim existem os caixas automáticos; os serviços pela Internet etc e tal...Alguém aí conseguiu falar com um atendente de algum BANKFONE que tenha dado seqüência à ligação??? Ééé, todos eles diziam não estar escutando o que dizíamos do outro lado da linha. LINDO, NÃO??? Será que algum desses bancários já pensou que PODERIA SER A MÃE DELE tentando sacar a surrada aposentadoria???

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Um novo Curso de Jornalismo

Diante das manifestações recentes contra a atividade jornalística no País, necessário é uma reflexão sobre o tema. Considero que o momento é preocupante, não somente para a atividade acadêmica na formação dos futuros profissionais, senão para a atividade jornalística como representante efetiva do Quarto Poder, considerando-se sua aplicação como antena a irradiar para a sociedade como um todo os fazeres e desfazeres de um governo em suas três categorias de representatividade, quais sejam: Executivo; Legislativo e Judiciário.

Diante disso, o que vimos conferindo é uma constante tentativa de desvalorização da atividade jornalística, como até mesmo um aceno a uma deplorável censura prévia, inaceitável numa sociedade que se diz viver em estado pleno de direito. Num período inferior a 90 dias foram dois golpes certeiros, com toda a conotação de terem sido adrede preparados: 1) O ministro presidente do STF- Supremo Tribunal Federal, acaba com a obrigatoriedade de diploma de nível superior para o exercício da profissão de jornalista. E compara a atividade à preparação de alimentos numa cozinha industrial, onde há um chef e um cozinheiro. O primeiro pode ter feito cursos especializados sobre a atividade culinária, e o segundo pode ter aprendido seu ofício apenas como olheiro, que faz aqui e ali seus experimentos. Pois bem: para o cabeção do STF, a ele não importa quem tenha preparado a comida, desde que atenda ao paladar do faminto; 2) Um procurador de Justiça baixa uma ordem contra um jornal de circulação nacional, proibindo que ele divulgue qualquer notícia sobre uma investigação que é realizada contra o filho empresário do presidente do Senado Federal. Note-se: proíbe que o jornal cite a investigação, o processo, e até mesmo o nome do filho do maioral do Congresso. E esse maioral, que é dono de jornal, televisão e emissoras de rádio, faz discurso no Senado (na 3ª feira, 15.09.2009) para dizer que a mídia faz campanha contra os parlamentares, arrogando para si o status de representante da sociedade. O maioral do Senado utiliza um palavreado irônico e cheio de aleivosias, demonstrando uma intenção de que é preciso frear esse ímpeto da mídia, dizendo que eles, os parlamentares, tratam tudo às claras, “à luz do dia”, e que são eles os verdadeiros representantes do povo. E estão sendo massacrados...

É ou não é para pôr as barbas de molho?

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Saúde americana na UTI comportamental

Foi preciso um presidente negro, francamente contestado por quem nele não votou, para que viesse à tona uma realidade longamente encoberta: o norte-americano comum não tem acesso a atendimento médico.
A proposta oferecida pelo chefe da Casa Branca é repudiada não somente no Congresso, como também pelo cidadão comum, que acabaria sendo beneficiário do sistema por ele proposto de atendimento médico adequado a todo e qualquer cidadão estadunidense.
A reforma proposta por Barack Obama, em cumprimento à proposta de campanha, pela qual todos os cidadãos seriam protegidos por um seguro-saúde básico, enfrenta forte resistência política e, também, entre a população, comprometendo, já, sua popularidade. Interessante que, tampouco Bill Clinton conseguiu levar avante seu plano de seguro-saúde para todos os cidadãos. Mas, parece, a questão não ganhou a dimensão alcançada agora, que divide o país. Vejam bem: a proposta é de um plano de seguro-saúde básico. Básico mesmo!, pois quem pode, paga o melhor; quem não pode, isto é, não tem nada, tem atendimento. Mas o classe média-média, o remediado, este não tem remédio. Se ficar doente tem que vender tudo o que tem (ou hipotecar) e tentar salvar a pele.
É preciso que fique muito claro: nem uma coisa capenga e desesperadoramente angustiante como o SUS brasileiro existe por lá. A realidadde vem à luz: aquela balela que nos enfiaram goela abaixo durante todo o período da guerra fria (extinta no final dos anos ´80 do século passado) sobre o que seria o maravilhoso "american way of life", com serviços médicos ao alcance de todos, veio à luz com a maior crise econômica após o ´crash´ da bolsa de Nova Iorque no começo dos anos ´30 do século 20. Não há como oferecer plano de saúde para todos porque os próprios norte-americanos não concordam em pagar por um serviço que será usufruído por outro. Vale dizer: o individualismo exacerbado pela sociedade mais competitiva do mundo forma cidadãos amesquinhados. Em artigo na "Folha de S.Paulo" (pág. E10, de 03.09.2009), Contardo Calligaris conta que ouviu de cidadãos norte-americanos a preocupação de que seguro-saúde universal "é coisa de país socialista ou comunista".
Quem diria: foi preciso um homem negro para o americano revelar, com todas as letras, esta realidade solar de seu comportamento individualista.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Lembra que és mortal...

Mementu mori,
em Latim, lembra que és mortal,
quem me sopra essa frase é o professor Miguel, colega que acabo de conhecer, lembrando que esse mote era constantemente dito aos imperadores romanos, por assessores, para que não esquecessem, jamais, da condição de humanos que eram e não de divindades, que supunham ser...
Já no sistema de governo do Brasil, por exemplo, o que parece acontecer é que os governantes se acercam de acólitos que se esmeram em dizer a eles exatamente o contrário do que era dito aos imperadores romanos. Aqui, tais puxa-sacos só pensam em garantir vantagens pessoais, o que os leva a permanentemente dizer aos poderosos de plantão que eles, se não são deuses, no mínimo são "o máximo". Não são pessoas comuns.
Afinal, pessoas comuns trabalham, pagam suas contas, contribuem para o crescimento da Nação pagando seus impostos etc e tal, enquanto pessoas não-comuns usufruem do que o Estado produz. Além de se beneficiarem, fazem de tudo por quem julgam merecer tais atenções, sejam parentes, amigos, amigos dos amigos, amigos dos filhos, dos sobrinhos, namorados dos amigos etc e tal...
Essa atitude promove uma espécie de letargia nas pessoas de bem, que deixam de se preocupar com o que acontece na esfera pública, nos níveis federal, estaduais e municipais, de tal maneira que os representantes eleitos pelo povo deixam de se preocupar com essa questão de representação. Aliás, o povo que os elegeu prefere fazer de conta que nada tem com isso, de tal modo que sequer dá atenção ao que acontece nas câmaras muncipais, assembléias estaduais, câmara e senado federais... Aí, o que se vê é uma baixaria geral. A tal ponto que, reflitamos, pra que mesmo serve o Senado Federal?? Há quanto tempo não se tem notícia de que essa casa votou tal ou qual lei?
Importante ressaltar que o modelo praticado em nível federal repercute em todas as casas legislativas do País. Por essa razão, o que se vê é uma degringolada geral em todos os níveis. Aqui em Belém, por exemplo, os vereadores exibem cenas de pugilato público, num total desrespeito aos eleitores e, mais que isso, à população de um modo geral, mesmo, e sobretudo, aos que não são eleitores, como os colegiais, por exemplo, cidadãos em formação. Eis que a saúde da cidade vai mal, mal e mal. E o que se vê? Nada, nada e nada. Agora mesmo, há máquinas encaixotadas nos hospitais, e ninguém as instala, enquanto doentes renais esperam nas filas para fazer hemodiálise, os remédios para os que realizaram transplante não chegam, e a espera, que pode demorar semanas, fará muitas vítimas fatais. Quem se preocupa? O sistema de transporte é uma porcaria. Os ônibus são velhos, sujos, os motoristas parecem ter bronca dos passgeiros, tão mal dirigem, fazem curvas, freiam bruscamente...e, em geral, passam ao largo das paradas, enquanto os passageiros ficam acenando ao vento. As escolas, caindo aos pedaços. Faltam carteiras, alunos sentam no chão, a merenda é superfaturada, os professores mal remunerados...,Quem se importa? A cidade é uma sujeira só. Lixo por toda parte. E os lixões a céu aberto, sem aterro sanitário... O tratamento de esgoto é...nenhum. Não chega a dez por cento o total de domicílios atendidos pelo sistema de esgoto. Os canais por toda a cidade (que poderiam ser meios de trnasporte) são depósitos de lixo, horríveis...O atendimento do serviço de água também deixa a desejar, sobretudo porque todo o setor de encanamento está deteriorado. Para reverter a situação, o governo do Pará negociou com mo Ministério das Cidades, que acabou liberando cerca de 300 milhões de reais para a realização do trabalho. Mas, para que o dinheiro chegue à cidade, necessário é que a Prefeitura avalize. Vejam bem: avalize. E o prefeito (que anda sumido da cidade) o que fez? Recusou o dinheiro. Disse que quer privatizar o serviço de tratamento e distribuição de água em Belém. Já pensaram o que isso significa? Uma empresa privada vai pagar uma montanha de dinheiro para a Prefeitura para fazer o quê? Arrancar muitos lucros da população. E o prefeito vai fazer o quê com a montanha de dinheiro que vai receber?? Alguém se lembra do montante que foi pago para privatizar o serviço de energia elétrica durante o governo Almir Gabriel? Onde está o dinheiro? Para onde foi? Para onde vai o dinheiro se a água for privatizada?? Foi Dudu que fez, vão dizer os marqueteiros na próxima campanha eleitoral...É Dudu que faz...Mementu mori.

sábado, 15 de agosto de 2009

Paz e Amor, há 40 anos

"Say you one, two, three,
what I´m fighting for?,
Don´t ask me, I don´t gave a damm,
next stop is Vietnam"...

Há 40 anos, numa fazenda perto de Nova York, Country Joe, à frente do The Fish, fez a galera delirar com esse refrão de indignação contra a guerra em que a maior potência da Terra se atolava. Os soldados norte-americanos foram desmoralizados, enfrentando abnegados vietnamitas que lhes impuseram uma debandada desesperada, como jamais imaginaram...É possível que Washington tenha chegado a pensar em lançar uma bomba atômica nos campos alagados do Vietnam, onde seus soldados eram presas fáceis dos vietnamitas. Mas, escaldados, com a condenação internacional depois das duas bombas sobre Hiroshima e Nagasaki, também num fatídico Agosto, no que se pode considerar como os atos de maior terrorismo de Estado que se tem notícia. Pois é: a cada dia ficava mais difícil a permanência em solo vietnamita, mas, para não dar o braço a torcer, os norte-americanos queriam conquistar alguma vantagem, a menor que fosse, para então sair. Não foi possível. Tiveram que fugir de maneira dramática, menos de cinco anos depois do Festival de Woodstock, que, a partir de 15 de Agosto de 1969, reuniu meio milhão de jovens durante três dias de Paz, Música, Drogas e muito Amor. Não houve registro de nenhuma agressão, nenhum ato de violência. Um outro mundo é possível. Yes, we can!

Liberdade, liberdade...

"Liberdade, liberdade,
abre as asas sobre nós".

É bonito e inspirador o refrão do Hino à República. Virou até tema de samba-enredo num Carnaval carioca de muito sucesso. Mas qual, menino e marmanjo ainda precisam comer muito feijão-com-arroz pra viver, plenamente, essa tal de liberdade.
Para o jurista Walter Ceneviva, "no regime democrático, a liberdade não acolhe a ofensa de direitos individuais, mas determina que a ação judicial para protegê-los não ofenda a liberdade informativa e de crítica, elemento fundante de defesa da sociedade". Em seu artigo na ´Folha de S.Paulo´ deste sábado, Ceneviva observa que o artigo 5º da Constituição Brasileira afirma ser inviolável a liberdade de manifestação do pensamento, sob a ressalva de que o manifestante seja identificado, ante a vedação do anonimato.
No artigo 220, vê-se que a manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação são livres, observado o disposto na mesma Carta Magna. E o jurista conclui que houve censura judicial da mídia: "Os limites a serem respeitados acabaram gerando consequências nefastas quando serviram para justificar limitações muito além das ressalvas referidas, afrontando a interpretação adequada da liberdade fundamental. Foi o que ocorreu, há pouco, com a violação da liberdade do jornal ´O Estado de S.Paulo´.
De acordo com Ceneviva, o direito constitucional aceita que o Judiciário possa punir quem se exceda na manifestação do pensamento, MAS NÃO PERMITE QUE O VEÍCULO JORNALÍSTICO SEJA PROIBIDO, POR ANTECIPAÇÃO, DE TRANSMITIR NOTÍCIA, INFORMAÇÃO OU CRÍTICA A RESPEITO DE QUEM QUER QUE SEJA, pessoa determinada ou não de cargo público. "Vedar publicação futura referente a qualquer pessoa supostamente ameaçada por matéria que órgão de comunicação pretenda divulgar viola princípio básico da Carta Magna, ofende a essência jurídica da comunicação livre, do veículo e da comunidade".
Como se recorda, recentemente, por decisão de um juiz do círculo de amizades do presidente do Senado, o jornal ´O Estado de S.Paulo´ foi proibido de dar informações sobre processo da Polícia Federal contra o filho dele, Fernando Sarney. Os dois teriam negociado em segredo e fechado um acordo para dar um cargo público ao namorado da neta de José Sarney. Acordo fechado, o emprego foi garantido por ´ato secreto´ do diretor do Senado, nomeado há 14 anos por ninguém menos que o próprio Sarney, em sua primeira passagem pela chefia do Senado, depois de deixar a presidência do País em frangalhos, amargando à época, inflação superior a 5.000% ao ano... Não é brinquedo não.
Agora, o jurista Walter Ceneviva considera o caso da censura ao jornal ´O Estado de S.Paulo´ "mais grave quando se soube das relações familiares do magistrado com pessoas envolvidas ou parentes delas. Justificou que a suspeição fosse invocada. Suspeição é a condição em que se encontra o juiz quando sua imparcialidade possa ser posta em dúvida no julgamento de causa, incidente ou ato em que intervenha".

A lição que vem da cadeia

A questão da liberdade de imprensa está mesmo mexendo com as pessoas, pois estão percebendo que lhes está sendo negado direito garantido na Constituição Brasileira. Assim é que o médico Drauzio Varella quebrou uma tradição de quase dez anos. Ele escreve sobre saúde pública semanalmente no ´Folhão´. E hoje, saiu do trilho. Decidiu invocar a liberdade de imprensa que está sendo alvo de ataque que poderá degringolar ainda mais, provocando sabe-se lá o quê. O médico diz o porquê de ter decidido entrar na seara política: "Os últimos acontecimentos de Brasília foram tão desconcertantes e chocaram a nação de tal forma, que ignorá-los seria omissão. No trato da administração pública, chegamos a níveis de desfaçatez e de imoralidade assumida incompatíveis com os princípios éticos mais elementares. Para os que ganham a vida com o suor do próprio rosto, é revoltante tomar consciência de que parte dos impostos recolhidos ao comprar um quilo de feijão é esbanjada, malversada ou simplesmente desapropriada pela CORJA DE APROVEITADORES INSTALADA HÁ DÉCADAS NA CÚPULA DA HIERARQUIA DO PODER" (grifo meu).
Observa que é ainda mais chocante ter a certeza de que esses crimes dos poderosos jamais serão punidos, por mais graves que sejam. E ele cita um caso que presenciou quando trabalhava na antiga Casa de Detenção de São Paulo (no Carandiru), onde fazia um trabalho de prevenção à AIDS. Conversando com os presos, a televisão estava ligada, um dos detentos apontou para o aparelho ligado no horário político, no qual discursava um candidato, e disparou: "Olha aí, senhor, dizem que esse homem levou 450 milhões de dólares. Se somar o que todos nós roubamos a vida inteira, os 7 mil presos da cadeia, não chega a 10 por cento disso".
E o médico conclui: "A esperança está na prática da democracia. Se a Justiça não pune os que se apropriam dos bens públicos, a liberdade de imprensa é a arma que nos resta, a única que ainda os assusta".
Tem toda a razão. Se não fosse por isso, por que, então, mandar calar o ´Estadão´?
Quando deixou a Presidência da República, para a qual foi guindado sem ter recebido um voto sequer, Sarney foi alvo de uma charge do Millôr Fernandes que fez enorme sucesso: um Sarney pequenino, quase um bebê, mas já com o mal-pintado bigodão, sentado num peniquinho, e dizendo: "acabei, mamãe". Infelizmente, ele ainda não acabou, como lembrou dia desses o Ruy Castro numa crônica.

Belém-Belém, tá tudo bem...

"Desperta o gigante brasileiro,
Desperta e proclama ao mundo inteiro,
Num brado de orgulho e confiança,
Nasceu linda Brasília, a capital da esperança."

Não sei o porquê de acordar com o refrão dessa marchinha martelando minha cabeça nesta manhã ensolarada de feriado em Belém do Pará. Feriado estranho esse 15 de Agosto, para quem não é daqui...Afinal, é o dia que marca a ´adesão´ do Estado paraense à independência do Brasil, proclamada por D.Pedro I onze meses antes. Bem, vai ver é porque, às vésperas de se tornar cinquentona, a bela capital federal confirma a sina de que a esperança é a última que morre, mas também morre. Afinal, quem poderia imaginar, à época da inauguração -com solene hino cantado a plenos pulmões com banda de música, desfiles etc e tal-, que os elegantes prédios construídos para abrigar os poderes da República, viriam a se transformar no lodaçal putrefato que se esparrama sem nenhum sinal de que poderá ser contido. Senão vejamos: os congressistas, eleitos para representar o povo e/ou seus Estados de origem, fazem da coisa pública, privada. E, quando pegos em flagrante delito, não se dão por achados e alegam que é prática comum usar como privada a coisa pública...Brasília, bela capital? "Ma che bella roba!", diria dona Francisca, vizinha italiana de minha infância em Sampaulo. Que também não é mais a ´Paulicéia Desvairada´ de Mário de Andrade. E onde também não se pode mais dizer que "a alegria é a prova dos nove", do modernista Oswald, instalado num confeitaria da Barão de Itapetininga, onde desemboca o Viaduto do Chá...Tudo isso me vem à mente depois de ler artigo do Xico Sá em que qualifica a capital paulista como "a cidade proibida". Segundo ele, quem não sabe ou não pode se divertir, proíbe, prende, arrebenta. É assim que o paulistano nato ou por opção está se sentindo naquela que, para mim, já foi a mais cosmopolita das cidades brasileiras e onde não pretendo mais morar...Sabe lá o que é conhecer uma "Belém-Belém, tá tudo bem. Belém-Belém, tá tudo bem, tudo bem, tudo bem", como diz a letra da bela música do Nilson Chaves. Pois me é preferível ficar onde é "tudo índio, tudo parente", outra canção que evoca as belezas dessa malemolência nativa, por onde a vida escorre lenta nas correntezas desses rios-mar, com ondas de água doce invadindo tudo, enquanto "a Lua foi bater no mar, e eu fui que fui ficando"...

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

6º arquivo

O presidente do Conselho de Ética e Decoro (?) do Senado Federal decidiu arquivar todas as denúncias apresentadas contra o senador José Sarney. Ele alega que as argumentações e críticas apresentadas basearam-se em notícias publicadas pela imprensa. Ignorou toda manifestação contrária. Arquivou e pronto. Mandou para o lixo todas as denúncias. O lixo. O cesto. O arquivo...Há um bom tempo, lá pelos anos ´70 do século passado, o jornalista Alberto Dines, que hoje comanda o Observatório da Imprensa, mantinha no JB - Jornal do Brasil, uma singela coluna dominical com o título de ´Jornal da Cesta´. Era uma coletânea de notas da maior importância, que, por uma razão ou outra não encontraram espaço no noticiário "comum" - palavrinha que se tornou símbolo emblemático nesses tempos revisionistas. A cesta, em questão, era mesmo a do lixo...Assim como parece acontecer agora. O presidente do Conselho de Ética (?) mandou para o (6º) arquivo todas as denúncias. Diante das ameaças da oposição (?), o senador, que jamais recebeu um voto sequer, pois é 2º suplente -ele assumiu a vaga deixada no Senado por quem foi ocupar uma secretaria no governo do Estado do Rio-, o carioca Paulo Duque se disse "tranqüilão" (assim, com trema, mesmo, para dar maior ênfase à desfaçatez)...
Bem que antes, muito antes, quando Paulo Duque foi indicado para esse cargo, que ele transformou em decorativo, o jornalista Ruy Castro fez em sua coluna um pedido ao governador do Rio, para que demovesse seu secretário -nem que fosse momentaneamente- e o mandasse de volta ao Senado, na tentativa de evitar esse lamentável episódio... Mas, ao que tudo indica, o governador Sérgio Cabral, do mesmo PMDB de Sarney, parece também estar "tranqüilão"...

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

TV Senado ´apaga´ protesto

Mais essa agora. Não bastasse o jornal O Estado de S.Paulo -empresa jornalística privada- ter sido proibido de noticiar as mazelas apontadas pela Polícia Federal contra o 1º filho do Senado, Fernando Sarney, agora, papai-sabe-tudo proíbe também que o público se manifeste na tevê que é paga por ele mesmo (o cidadão comum, que cumpre com suas obrigações, pagando pesados impostos). Pra fugir do estigma de censor, que já repercute mal sobre a impávida figura do presidente do Congresso, a opção foi tirar do ar a emissora no momento em que o populacho, nas galerias, levantava faixas com a inscrição "Fora Sarney". Apagaram o protesto.
Pois é, enquanto alega estar "firmíssimo" no cargo, que não larga de jeito nenhum, papai-sabe-tudo dá um jeitinho de enganar o populacho, alegando, certamente, que não comete censura pois a TV Senado deve ter saído do ar por ´falha técnica´...Ah, bom. E enquanto a 1ª filha do Senado, Roseana, que ganhou de presente (no tapetão) o cargo de governadora do Maranhão, depois de ter perdido a eleição, garante que papai-sabe-tudo "não é apegado ao cargo" (!!!). Nesse caso, a única reflexão possível é: ele não é apegado ao cargo porque não considera estar ocupando um cargo, mas sim exercendo um dom divino, como antigos imperadores de um distante Oriente...

terça-feira, 4 de agosto de 2009

In (God...money?) we trust

"Dólar, yê, yê, yê, dólar, yê, yê, yê, dólar, yê, yê, yê, dólar..."
O refrão da debochada canção de Tom Zé, nos anos ´70 do século passado, dá bem o tom do que é o objetivo maior da classe média, emergente ou não, naqueles conturbados anos de ditadura militar, logo depois dos inesquecíveis ´60, de revolta estudantil, beatniks, revolução de costumes, feminismo, liberalismo sexual, o niilismo de Sartre ou o racionalismo de Camus...A discussão fervia. As mesas de bar nunca mais foram as mesmas...Até porque toda uma geração foi ceifada na base. Quem ousasse pensar era eliminado.
Por isso, a debochada canção de Tom Zé teve inspiração na própria nota de dólar, em que há a inscrição "In God we trust", mas que, em verdade, a crença ou confiança expressa pela classe média é mesmo nas verdinhas, as imutáveis notas verdes de dólar de qualquer valor expresso. Muda somente a foto dos presidentes. Cada qual com seu valor. Afinal, a sociedade capitalista sabe melhor que ninguém a quem atribuir o valor que mereça...Aos órfãos (viúvas?), cabe apenas imitar. Razão pela qual o frustrado Plano Cruzado (de triste memória do governo Sarney -1985/1989- com inflação passando da casa dos 5 mil por cento) cunhou nova moeda, de nome Cruzado, com a inscrição cópia (plágio?) da norte-americana "Deus seja Louvado". Inscrição essa que o ´príncipe´ FHC (então ministro da Fazenda do governo Itamar Franco) manteve na novel moeda nacional, o Real, onde se pode ler até hoje "Deus seja Louvado".
Até aí, o mesmo Deus pode ser figura de destaque às variadas tendências (modismos?) religiosas. Desde que cristãs, podem ser católicas, protestantes, ortodoxas, muçulmanas e, até, por que não dizer, judáicas. Afinal o judaísmo acredita num Deus. E quem são os maiores banqueiros do mundo? Pois é, existe também o deus-mercado... Esse, não há governante que queira dele ficar distante. Mesmo que seja necessário declarar insuspeitada fé de um agnóstico (ateu?) assumido, que chegou a perder a eleição à Prefeitura de Sampaulo por ter vacilado diante da pergunta do mediador em debate pré-eleitoral: "Candidato Fernando Henrique, o senhor acredita em Deus?", disparou Boris Casoy a uma empertigada figura que começou a se mexer na cadeira, expondo o incômodo da pergunta, para, quase balbuciando, responder em seguida: "Boris, nós combinamos que você não faria essa pergunta". Gargalhada geral na platéia...E derrocada nas urnas.
Pois é, na presidência desse mesmo FHC que o Brasil estabeleceu o ensino religioso nas escolas do nível fundamental. Recentemente, o governo Lula (de quem se temia governo radical de esquerda) firmou acordo com o Estado do Vaticano privilegiando abertamente a crença católica sobre as demais. Embora tal decisão possa ser rejeitada pela Câmara dos Deputados, a coisa vai mal, pois a Constituição Brasileira, em seu Artigo 5º ("Todos são iguais perante a lei...") VI - "É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e suas liturgias".
A propósito disso, há leitores enviando cartas a jornais alegando ser inconcebível que, num estado laico, haja crucifixos em repartições públicas, como em salas legislativas e de tribunais, por exemplo...In (...$$$) we trust???

domingo, 2 de agosto de 2009

A lei, ora a lei...

"Lei de Imprensa: pior sem ela".
Esse é o título do artigo do jurista Walter Ceneviva, a propósito da extinção da velha Lei de Imprensa (nº5250, editada em 1967), publicado na Folha de S.Paulo, à página C2 (09.maio.2009), considerando que, apesar de formalmente votada pelo Congresso, foi sancionada pelo marechal-presidente Castello Branco, e continha muitas imperfeições, pois o objetivo era cercear a liberdade. Em sua ementa (considerada falsa pelo jurista) estava escrito: "Regula a liberdade de manifestação do pensamento e de informação". O jurista observa que o verbo ´regular´ significava o oposto: limitou a informação aos termos aceitos pelos governantes.
O STF (Supremo Tribunal Federal), ao considerar revogados os artigos da velha lei, considerada ´entulho autoritário´ prestou homenagem a preceitos democráticos relevantes: era produto da ditadura e, portanto, inconstitucional. Mas, segundo o jurista, o STF incidiu em contradição, pois desde a retomada democrática julgou várias vezes questões com base na norma extinta.
Inegável a origem espúria da Lei de Imprensa e defeitos dela decorrentes, era um referencial, "e acabou sendo instrumento útil para preservar a atividade jornalística nas mídias impressa e eletrônica, depois da ditadura, ao assegurar a proteção da privacidade, garantir o direito de resposta, a limitação de indenizações decididas pelo Judiciário (...) é pior a falta de lei do que ter a de 1967. A razão jurídica se relaciona com a defesa da liberdade de informação".
Para o jurista com quem compartilhei espaço na redação da Folha, no início dos anos 1980, ainda sob a ditadura militar, onde muitas e muitas dúvidas eram ali mesmo trazidas à luz pelo grande estudioso das leis, conhecido pela lhaneza de trato, a falta de um referencial pode deixar a causa jornalística ao sabor dos humores de um ou outro juiz de uma comarca que interceda em favor deste ou daquele amigo e/ou protegido...
Muitos estranharam o posicionamento do jurista.
Mas, agora, diante de dois fatos recentes, talvez seja momento de reflexão. Senão vejamos: há duas semanas um colunista de humor da Folha foi proibido de citar em sua coluna o nome de conhecida atriz da tevê, que faz comercial de cerveja em trajes mínimos, enaltecendo seus dotes físicos como atrativo e chamariz para o consumo da bebida. A proibição se deu por ela se sentir ofendida pelo fato de o colunista dar destaque aos...dotes físicos.
Outro fato, bem mais relevante, em razão da abrangência embora da mesma natureza, foi a proibição de o jornal O Estado de S.Paulo divulgar fatos referentes ao escândalo em que se transformou a própria família Sarney...Os fatos são de domínio público. Claro que só se tornaram públicos a partir do momento em que alguém, conhecedor do assunto, quis dele tirar proveito, talvez por não ter alcançado algo que pretendia ou porque sofreu algum impedimento em suas pretensões. A atuação jornlística no Congresso é sofrível, do ponto de vista investigativo. A malversação de dinheiro público, e os conchavos entre senadores foram denunciados por Rui Barbosa em 1899, somente dez anos depois da proclamação da República. Passados mais de cem anos, não seria o caso de os jornalistas conhecerem sobejamente os trâmites para saber onde atuar para, de fato, se comportar como o 4º poder?
Muito bem. As leis existem, mas podem servir a um propósito ou a outro. Disso bem o sabem os advogados (talvez a categoria com o mais ferrenho ´espírito de corpo´ ou corporativismo), experts nas ´interpretações´ da lei. Quando o STF decidiu acabar com a exigência de diploma de jornalista para o exercício da profissão, acompanhando o voto de Gilmar Mendes, relator do processo, o ministro Peluso disse que o diploma só é necessário em profissões que exigem o domínio de ´verdades científicas´.
Rebatendo tal argumento, escreveu o advogado e professor universitário Carlo José Napolitano: "Todo aluno de primeiro ano do curso de Direito sabe que essa é uma ciência onde não há ´verdades científicas´. Nesse sentido, segundo o entendimento do ministro Peluso, para ser juiz, promotor, advogado etc. não é mais preciso frequentar um curso de Direito. Infeliz pois essa definição deverá ficar a cargo do Legislativo, e não do Judiciário, que, mais uma vez, se intrometeu em um assunto que não lhe diz respeito" (Folha de S.Paulo, 19.junho.2009, Painel do Leitor, pg.A3).
A lei, ora a lei...

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Cozinhando

Interessante a definição de que jornalista é como chefe de cozinha. Afinal, é o que dá sustentação à vida. Tanto de um lado quanto de outro. Senão vejamos: se não houver quem cuide da cozinha, impossível garantir a qualidade de um corpo são. E a falta de quem fiscalize os atos do governo, torna improvável a subsistência do corpo social.
´Cozinhar´ é um termo utilizado na redação quando se pretende voltar a um assunto já explorado que tenha novidades mas exige uma rememoração dos fatos. Semelhante à cozinha que reaproveita alimentos já servidos, dos quais as sobras são ainda apreciáveis.
Agora, quanto ao fato de a máxima corte do País se preocupar em julgar a necessidade ou não do diploma para o exercício profissional dá a impressão de falta do que fazer ou de ´uma vingancinha´ contra os profissionais da área que mantêm acesa vigilância sobre os atos e fatos ali gerados. Se não fosse assim, a alegada preocupação com a liberdade de expressão não teria lugar em tal julgamento, vez que jamais alguém foi impedido de se manifestar através dos meios de comunicação de todos os tipos, sendo ou não portador de diploma de jornalista.
Ao contrário, para o simples registro de entrada de documentação judicial, exige-se o diploma de advogado. Ora, vejamos: os códigos Civil e Penal são de livre acesso a quem interessar possa. Dessa forma, é permitido ao cidadão defender-se, se assim lhe aprouver. Por que, então, a exigência para qualquer trâmite forense?
Ainda mais: se há, realmente, preocupação com o que acontece no País, por que é que o mais elevado tribunal não tem olhos para as aberrações existentes no plano educacional brasileiro, onde professores do nível básico chegam a ganhar três reais ao dia, em diferentes regiões do País, enquanto a Constituição Federal estabelece que tal nível de docência terá plano de carreira e piso nacional de salário???